quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Energia e relações internacionais: o caso dos Estados Unidos



A última publicação do “World Energy Outlook”, da Agência Internacional de Energia (AIE), a mais prestigiosa fonte de informação, análise e prognóstico sobre o setor, inclui uma afirmação que causou surpresa: os EUA devem se tornar o maior produtor mundial de petróleo em 2020 e exportador do produto em 2030.
Como se sabe, os EUA desenvolveram, desde a segunda metade do século 19 e durante boa parte do século 20, uma economia totalmente baseada no abundante consumo de petróleo barato. Como maior consumidor de energia do mundo, os EUA foram ultrapassados pela China em 2010, mas os estadunidenses ainda consomem anualmente quase o dobro do consumo chinês de petróleo, além de o consumo per capita de energia ser cinco vezes maior.
Desde os anos 1970, os EUA vêm perdendo liderança como produtor mundial de petróleo e, em 2012, importou 42% de suas necessidades. Esta dependência explicaria, em parte, a expansão militar estadunidense desde os anos 1970, que tem como exemplo mais recente a implantação de um comando militar específico para a África. Desde que o continente africano passou a ser grande produtor de petróleo e objeto de cobiça dos investimentos chineses, os EUA desmembraram o comando europeu de onde atuava no continente africano.
A AIE costuma ser comedida em seus prognósticos. Se assim o fez no que concerne à produção estadunidense é porque seus analistas devem estar seguros de que métodos não convencionais de extração de petróleo e gás natural tendem a crescer muito nos EUA. O sucesso recente na extração de gás e petróleo de xisto, dos depósitos rochosos, parece ser a principal motivação para o prognóstico.
EUA podem dispensar bases militares em países produtores
Apesar da atual bonança nos EUA, nem tudo são flores no mundo do petróleo e gás não convencional. Em paralelo ao crescimento exponencial da produção, diversas opiniões contrárias a respeito da exploração de petróleo e gás de xisto predominam nos debates sobre métodos não convencionais de extração. 
Muitos analistas argumentam que, apesar do “boom”, existem sinais suficientes de que a produção demandaria investimentos muito elevados e exigiria centenas ou milhares de perfurações nas rochas para manter o volume de produção. Além disso, a exploração provocaria grande impacto ambiental, como o alto consumo de água, a liberação de gás metano e a contaminação do lençol freático. A indústria, entretanto, mira um futuro róseo pela frente e garante volumes crescentes de investimento e produção.
Não desconsiderando esta polêmica, se aceitamos como possível o prognóstico da AIE, quais seriam as consequências para a geopolítica mundial do petróleo? Se os EUA se tornarem autossuficientes, ou até mesmo exportadores, seu interesse em assegurar as rotas marítimas e o conjunto de bases militares que cercam os importantes países produtores de petróleo tenderia a diminuir. Certamente o poder dos grandes produtores do Oriente Médio, bem como da Rússia, iria arrefecer, assim como a capacidade da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) de controlar os volumes e os preços internacionais do petróleo.
Extração de gás e petróleo do xisto
A extração de gás e petróleo das formações rochosas de xisto não é um processo recente. Com efeito, desde o século 19 essa extração já era conhecida e utilizada, mas apenas em pequena escala. A fácil exploração das abundantes reservas de petróleo e gás natural, condenou a extração de xisto a um papel secundário. Nas últimas décadas, porém, com a queda da produção e a crescente dependência do produto importado, as empresas passaram a investir mais em tecnologias para extração do petróleo e gás de xisto.
Nos últimos dez anos, a tecnologia de perfuração horizontal e de fraturamento hidráulico da rocha – por bombeamentos fortíssimos de água, areia e produtos químicos – acabou permitindo a extração em bases comerciais, favorecida ainda pelo alto preço internacional do petróleo e do gás natural. Assim, a produção de gás de xisto nos EUA cresceu exponencialmente, levando-os à autossuficiência.
Combinado com a recessão que se abateu sobre o país desde 2007, o preço doméstico do gás natural atingiu patamares que há muito tempo não se via: apenas US$ 3 por milhões de pés cúbicos (o preço estava entre US$ 7 e US$ 8). Para efeito de comparação, o preço nos mercados domésticos na Europa e Japão, como também no Brasil, chega a ser até cinco vezes mais alto.
Fonte: NN  - A Mídia do Petróleo

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